domingo, agosto 24, 2014

Cap. IV - Em cima.



Teresa não tinha pressa. Sabia que o tempo não esperava porque não podia. Ela, sim.
Deitou-se num recanto florido, aspirando com sofreguidão tranquila os perfumes exalados. Levantou cuidadosamente a fímbria da túnica e procurou com o tacto o único objeto que trouxera consigo. Não, não era uma caixa.
Colocou-a em cima de uma pedra lisa e deixou-a receber os raios luminosos como carícias. Vagarosamente, as suas cores acordaram, enrubesceram primeiro, faiscando finalmente. Teresa conhecia de cor estas transmutações. Naquele dia, assomavam mais vivas e jubilosas que nunca. O único mistério das coisas é cada uma conter todos os mistérios das outras.
Fora um longo percurso. Agora, sentia que tudo não passara de um relâmpago. Como pudera pensar que eternidades a separavam deste momento?
Voltou a aconchegar o objeto que parecia uma caixa e levantou-se. Decidiu-se a iniciar a subida. Conseguia entender a disposição de cada pedra, o lugar de cada erva, o significado de cada flor, o alinhamento de cada grão de poeira. Tudo lhe surgia claro e evidente.
Lá em cima, fulgia de novo a pequena luz mortiça. Sob o tecido sentiu um calor sereno.
Teresa não sabia quantos dias ou meses demoraria a alcançar o longínquo brilho que a chamava sem chamar. Como num sonho, entre um olhar benevolente sobre uma ave branca pousada num penedo e um pestanejar prolongado de comprazimento, soube que chegara ao seu destino. Estava no cume. Lá em baixo, pradarias de neblina estendiam-se sem fim. Pareceu-lhe ver um vulto diáfano de mulher a dormir sob uma árvore, lá em baixo, muito longe. A aparição não durara um milésimo de segundo.
À sua frente, uma pequena gruta. Ouviu ruídos no seu interior, como passos titubeantes. Algo semelhante a um restolhar por entre ramos secos. Sentiu um torpor apaziguador percorrer-lhe toda a pele e abrasar-lhe os olhos.


Vindos da penumbra, dois pares de olhos fixaram os seus, sem surpresa, e ambos se sentiram sugados por um vórtex que os levou a um passado longínquo, às suas existências separadas…

quarta-feira, agosto 13, 2014

Cap. III - Sentado, de novo.



Estava sentado, de novo.
A neblina voltara a cobrir tudo com o seu hálito insípido. Mas tinha quase a certeza de que tinha descortinado um breve fulgor singularíssimo. Como se fosse uma alma. Teria de estar atento. Não iria perder a oportunidade.
Lentamente, caminhou até à entrada da gruta. Pela enésima vez, inspecionou os milhares de pequenos retângulos, perfilados como guerreiros de terracota. Tivera sorte em ter encontrado uma gruta em cujo interior cresciam árvore de ramos finos e sem folhas. Os galhos eram agora o seu retábulo, com os retângulos de papel em vez de folhas, com se fossem vidas suspensas numa árvore genealógica. Parecera-lhe bem, mas, enfim, a qualquer momento, poderia alterar tudo isso. Neste momento, pareciam em sintonia cósmica. Eram a sua única ligação à outra existência. Melhor dizendo, talvez fossem a única ligação que a atual existência permitira à anterior. Naquela em que se chamava Heitor. Aquele que guarda, que retém, que possui.
Agora, nada guardava, nada retinha, nada possuía. Na verdade, tudo se tinha alterado ou invertido. Era agora ele quem era guardado. Talvez sempre assim tivesse sido, ele é que nunca tinha percebido. Como é difícil ver alguma coisa de olhos abertos!
Durante muito tempo, não entendia por que o fazia. Tivera mesmo momentos em que duvidara da sua sanidade mental. Não sabia ainda que o mais verdadeiro é o que não tem explicação.


Por vezes, lembrava-se de Modesto, o Peixe. Modesto! Que nome tão apropriado! Sorria, infantil, pensando nas duas irmãs sempre de mão dada: Modéstia e Sageza. Duas manas bem matreiras. Fosse como fosse, era a única pessoa que não o julgava louco ou tarado. Que ignorância o dominara ao pensar que era Modesto quem estava fechado num aquário. O seu olhar zombeteiro, o ondular das barbatanas bem o tentaram avisar. Como tinha sido estulto em julgar que quando abria e fechava a boca não estava realmente a desafiar. Quantas línguas fala uma pessoa e quantas pode aprender? Na altura, não adivinhava que basta uma.

segunda-feira, agosto 11, 2014

Note.




Sim.
De novo o azul.
Só mais tarde o celeste se faz favor.
Talvez.
De novo o negro.
Só mais tarde as cinzas se faz favor.
Não.
De novo o branco.
Só mais tarde o esquecimento se faz favor.


Obrigado.

Cap. II - Muitos




A muitos quilómetros dali, um vulto feminino contorcia-se freneticamente. Soltava urros nunca antes ouvidos. O seu rosto sardento começara a iluminar-se. Agora, cada sarda brilhava com exuberância. Sentiu um calor avassalador crescer dentro de si e quase levitar. Ou teria levitado? De súbito, um frio glaciar apoderou-se do seu coração, que sentiu fervilhar como se nele vivessem milhares de corpúsculos efervescentes.
Então, uma calma imensa.
Não sentia qualquer fadiga, mas abraçou-se a uma árvore e deixou-se dormir.
Esteve assim muito tempo. Apenas sentia que nada voltaria a ser como antes. Sim, Teresa teve a certeza inabalável que nunca mais voltaria à vida anterior. Soergueu-se e aspirou a neblina. Precisava de um sinal, para iniciar a marcha. Ao longe, as montanhas azuis pareciam querer dizer qualquer coisa. Os seus cabelos flutuavam ligeiramente, como se fossem velas ansiosas pelo início da viagem. Lentamente, despojou-se do manto e descalçou as sandálias. Lançou-as por uma ravina ali perto. Antes de serem engolidas pelas névoas, pareceu-lhe que se desintegravam.
Iniciou, então, a caminhada. Serena e determinada. Solta e presa ao fio do caminho. Não havia vereda, por isso, deslocava-se por entre os penedos, tranquilamente, por sobre teias de musgo.
A neblina parecia não querer levantar-se. Conseguiu divisar o voo de aves de rapina. O seu movimento assemelhava-se ao rendilhar incessante das anciãs. Ficou a observar os seres alados pontilhando os ares, em percursos aritméticos. Desenhavam algo, isso era certo. Um padrão, uma forma, palavras, códigos? Ou tudo isso? Por que eram brancas, todas as aves? Por que eram inúmeras e pareciam apenas uma?
Pensou que seria melhor ficar ali, imóvel, perscrutando os ares. Deitou-se de costas no chão e fechou os olhos para ver melhor. Outra vez a sensação de quase levitação.
A certa altura, os polegares dos pés começaram a dançar no ar. Livres de peso e prenhes de embriaguez. Cada vez mais vigorosos, arriscavam-se a levar consigo todo o corpo.

No pico mais alto da montanha azul, adivinhou uma ténue luminescência. Baça, mortiça, irreal. 
Então, compreendeu.

Cap.I Sentado

Estava sentado. Melhor dizendo, reclinado, ao jeito dos antigos que não se deitavam para dormir, com pavor de morrerem durante o sono. Mas não dormia, não conseguia conciliar o sono. Não, porque estivesse agitado ou nervoso. Não. Era mais uma sensação de ansiedade entediante, mas sem moedouro no estômago. Detestava estes tempos mortos, no intervalo entre cenas intensas. Ultimamente, tinha perdido o jeito para adivinhar a sua emergência. Tinha cada vez mais dificuldades em ler os sinais. Ou talvez o excesso de acuidade analítica o impossibilitasse de intuir com mais clarividência. Sentia-se cada vez mais sozinho também.
Ao fim de muito tempo de silêncio de pensamentos, soergueu-se e tentou vislumbrar o que se passava para lá do horizonte. Ah, o costume. Vezes e vezes sem conta, assistira àquele vaivém. Nenhuma novidade parecia estar em germinação. Mas já tinha passado tanto tempo… seria possível que teria ainda de esperar mais? Virou-se de barriga para baixo e ficou a olhar fixamente o chão, a escassos milímetros do nariz. De vez em quando, desfocava a vista propositadamente, de modo a obter alguns efeitos visuais peculiares. Era uma brincadeira antiga, que sempre o divertira. Mas até as brincadeiras acabam por saturar. Decidiu então sorver o cheiro da terra. Hum, o travo da argila… Com um pequeno esforço de imaginação, começou a sentir outros aromas: areia da praia torrada do sol, erva acabada de cortar, torrões de terra húmida e fértil, moléculas de poeira soltas pelas primeiras chuvas, o substrato ressequido dos cemitérios, a lama empapada no campo de batalha. Era fácil demais e rapidamente se encaminhava para a morte. Era inevitável.
Desta vez, escolhera ficar de pé. Não fazia mal que algum ébrio lhe pudesse descortinar o halo. Às urtigas, o halo! Nunca aceitara de bom grado transportar consigo tal apêndice. Sempre o incomodara o sentido do ridículo. Não perdera a esperança de se vir a libertar de tão aberrante adereço.
Não se arrependeu. Lá longe, muito longe, algo que nunca vira antes parecia rebrilhar na neblina. 

domingo, janeiro 08, 2012

Alienação

Há duas formas de procurar a felicidade: imitar os deuses e vencer o destino ou aceitar a existência, tentando fruir os seus prazeres e minimizar as suas agruras. Na primeira via, está a busca do poder, a criação, o rito, a marginalidade e tantas outras vertigens; à segunda, pertencem todos os gestos do quotidiano, filhos da herança cultural da sobrevivência e das páginas do livro pessoal de cada um. Mas, como, nestas coisas, não é tudo a preto e branco: as duas vias, na verdade, entrelaçam-se, fundem-se e refundem-se, numa espiral contínua que é a história dos indivíduos e dos povos. No entanto, não parece haver qualquer equilíbrio entre estas duas forças, pois a sua acção e manifestação se processam de modo desproporcionado e instável, ora uma sobrepujando a outra, ora complementando-se, ora alternando-se.

Estranho e patético exercício (cómico mesmo, se visto por um hipotético deus), em que consciência e inconsciência se negam mutuamente, se atacam e fogem ao mesmo tempo.

Estas vias de alienação não passam de ferramentas do humano, para assobiar para o lado, para escapar por entre os pingos da chuva, para esquecer o horror da existência e a inevitabilidade da morte. Ou para sentir a vertigem do abismo.

Provar o gosto da morte ou a fusão no cosmos, perseguindo o esquecimento de si mesmo.

domingo, fevereiro 06, 2011

a explicação da paisagem




a paisagem é recortada.



a explicação da paisagem

com o seu plúmbeo rolo de certezas
e os seus óculos sapientes de miopia
deixa veredas niveladas
para os ronronantes motores
da nossa atabalhoada ignorância.

sempre o desespero
do conforto.
Mito, 6-2-11

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Lírico e Épico


Nas duas mãos do texto poético - a lírica e a épica, correm as veias da sedução; com a expressão de sentimentos se seduz o Amor, com a glorificação dos heróis se seduz a Morte.

terça-feira, agosto 21, 2007

The meaning of life

Alinho o lápis pelo canto inferior da base para copos. Alinho o corta-unhas pelo bico do lápis. Duma ponta do corta-unhas, traço uma linha imaginária num ângulo de 45 graus com o comprimento igual ao dobro da altura do lápis. Nesse ponto deposito uma sandes de queijo. Calculo uma bissectriz no pão e cravo-lhe um palito com uma azeitona. Na sombra da oliva, ergo um copo de vinho cheio com o número de gotas igual ao total de semanas que vivi até hoje.
Afinal, há um sentido da vida.

terça-feira, agosto 14, 2007

Reencontro















(a Miguel Torga)

Reencontrei-te hoje à tarde

Estavas anichado na tua voz litúrgica
Falavas muito mais baixo que os teus poemas
E todavia ribombavas
Mais fundo que uma fraga fendida por um raio
Sussuravas mais alto que as urzes no crepúsculo
Falavas para o vazio
Quem te aprisionou sabendo que estavas irremediavelmente
Prisioneiro da tua sede de liberdade?
Reencontrei-te e estavas arrumadinho com datas e lugares e tudo
Tua voz engaiolada em tons de lounge de hotel
A tua missa, quem a saberá?
Como pareciam acolhedores os ecos sintéticos da tua alma
Como soavam afáveis as tuas sílabas
Terias caído na vertigem da delicadeza?
Mil vezes, não!
A tua voz só tem lugar na crua exactidão do negro sobre o branco
Ou melhor dizendo do branco sobre o negro pois a luz só está no que não se diz
Não te reconheci
Mas reconheci-me
vi-me esperneando no espasmo do espanto
vi-me sangrando no abandono do Pai
vi-me palpitando as dores da terra pródiga
vi-me tacteando titubeante esta vida de barro
vi-me perante a nudez dum socalco ancestral

vi-me petrificado de dúvida e de certeza na mesma ígnea fusão

os pedaços de papel juravam lealdade
garantiam a perpetuação impossível
erguiam-se da lama e marchavam alegres da sua missão
Oh, oráculo de Dioniso e Satanás
Que portas para o precipício franqueaste?
Que mão pode sentir o abraço fraterno da verdade?
Que ouvidos podem estender uma toalha alva
aos gemidos de Orfeu?

Que destino para as almas que se acotovelam na encruzilhada
Da dúvida
Antecâmara da comunhão com o húmus?

Reencontrei-te hoje à tarde
A voz da gravação era velha
E de ancião
Mas as tuas palavras escritas rasgavam a treva com o ímpeto da juventude
Em todo o lado nascias e voltavas a nascer
O verbo lançando penedos a grandíssimas alturas
E cá em baixo as almas confusas comemoravam o teu primeiro
Centenário.

Mito, 12 de Agosto de 2007

quarta-feira, maio 30, 2007

Matar o tempo

Estou numa biblioteca pública. Nova e com excelentes condições, embora ainda com um acervo em crescimento. Muito espaço, muito claridade, óptima arquitectura, arejada e dialogante, diligentes e afáveis funcionários. Bons sofás em frente de óptimos equipamentos de audiovisual para a fruição de música e cinema. E muitos computadores, com ligação à Internet, claro. Muitos utentes, na maioria, jovens.
Alguns demonstram até algum entusiasmo, murmurando, eufóricos, no limite do civismo. Distraído, rodo o pescoço em busca displicente da origem de tal ânimo. Agora entendo, estão a disputar um daqueles jogos de realidade virtual 3D, em que se empunha uma pistola e se tenta dizimar quem quer que surja pela frente. E lá estão eles, alguns quase homens, de olhos brilhantes e sorriso infantil, clicando nas teclas assassinas. E matam, e matam, e matam, e matam...e matam?


Quem sabe se, um dia, o serão mesmo chamados a fazer?

quarta-feira, abril 25, 2007

Vim

Vim ver-te. É raro vir cá abaixo. Estás na mesma posição, espreguiçado no afago das silvas. Cá abaixo não chega o vento cortante nem o sol arranha com tanta força. Estás na mesma. Talvez diferente de quando estavas lá em cima, no alto da colina, quando o vento te eriçava os musgos e o sol te castigava as costas, enquanto eu dormia aninhado na minha ignorância, enquanto os medos germinavam. Estás na mesma. Talvez mais calado. Sempre cultivaste o silêncio. As palavras sabiam-te a fel. No silêncio estendeste os teus utensílios. Com o silêncio fabricaste as tuas planícies.
Não esqueço o dia da tempestade. Havia uma música verde no ar. Um aroma de pão a entrar no forno. Um frémito de dúvida percorreu as nuvens. O raio caiu, indiferente como uma flecha, certeiro como a fome. E tu caíste, desamparado pela colina abaixo. E eu fiquei a olhar para baixo, os olhos desenrolados nas torrentes de chuva. Senti os ossos líquidos, a alma vitrificada. O primeiro esvoaçar de medo tocou-me no lóbulo da orelha esquerda, agitando as portas mais abaixo. Olhei para cima e não vi nada. Senti o primeiro espigão a crescer-me nas costas. Caíram-me os dentes, os olhos apodreceram e, em seu lugar, cresceram duas pedras. Não consegui chamar pelo teu nome.
Arrependi-me de não ter descido à planura, incrustado no penhasco. Faço-o agora. Vejo que continuo por aqui. Vim ver-me.

domingo, fevereiro 25, 2007

Do you feel stupid?

Não resisto a transcrever aqui uma citação de Flaubert, saída hoje no Público:

"Ser estúpido, egoísta e ter boa saúde são três requisitos para a felicidade, mas se a estupidez faltar, está tudo perdido."

sábado, fevereiro 10, 2007

Tragédia à portuguesa

Todos conhecemos as tradicionais editorias dos órgãos de comunicação social: política, sociedade, desporto, internacional, etc., cujos chefes são os editores, responsáveis pela orientação editorial do tratamento jornalístico de cada vertente e, sobretudo, pela determinação do “agenda setting”, ou seja, da escolha dos assuntos a tratar e da forma de os tratar.
Ultimamente, tudo indica que haja uma nova editoria a imperar nas televisões: a da “tragédia”. Sabedores da avidez mórbida dos telespectadores, os senhores das televisões parecem ter estabelecido prioridades: tudo o que possa conter algo que cheire a tragédia, a drama, a horror.
Seja porque o fenómeno do aquecimento global obriga, seja porque as verdadeiras notícias escasseiam (ou a vontade de as procurar), cada vez se torna mais frequente a abertura dos telejornais com alertas amarelos emanados da Protecção Civil, ora porque vem aí muito frio (que inesperado, em pleno Inverno!), ora porque vai chover (pasme-se!), ora porque o vento vai redobrar de intensidade. Meu Deus, parece que nevou na serra da Estrela! Dizem que, numa rua de Tomar, dois tapetes ficaram encharcados durante a noite!
O pior é que os Fados eternos não colaboram e raramente acontece algo de verdadeiramente “trágico”, como se desejava desesperadamente. Não podem cair pontes todos os dias…Verdadeiramente trágico é quando se interpela o chamado popular que por ali ciranda, ao cheiro das televisões: - O frio? Ah, menina, é o tempo dele!” Insondáveis mistérios da sabedoria proverbial…
Assistimos, pois, a grandes “tragédias” por alturas da hora de jantar: as personagens não são nobres, mas o horário, é-o; desde logo se manifesta a hibris, o desafio que a falta de acontecimentos lança a um editor em desespero e que o leva a arriscar a notícia virtual; dilacerante é o pathòs, o sofrimento de quem tem de suportar tamanhos dislates; toda a reportagem logo se revela um anti-clímax; de pseudo-facto em pseudo-facto, de peripécia em peripécia, com a ajuda do jovem e voluntarioso estagiário preparado para arrostar a intempérie, mas que tem de pedir ao operador de câmara que lhe sopre no cabelo de vez em quando, caminhamos até à anagnórise, a revelação total: a notícia é que a natureza continua a fazer o seu trabalho. A catástrofe é que a comunicação social não faz o seu. Quanto ao senhor editor de “Tragédia”, não nos resta muito mais que mandá-lo catarse.

Volta, Artur Albarran, estás perdoado! O drama, o horror, a tragédia…

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Antes de adormecer

No afago da noite
Unimos a respiração
Remando sobre cansaços e sonhos
Como passageiros de veludo
Como asas rodopiando entre as flores
Olhámos o sol de frente
E sorrimos
E continuámos viagem, rindo estrondosamente
Que escadas que fontes que rios
Nos ligam ao lume da certeza?


Mito, 17-01-07

terça-feira, janeiro 09, 2007

SICK

O diploma conhecido por “Lei da televisão” (Lei n.º 32/2003, de 22 de Agosto) consagra no seu artigo 24.º alguns limites à liberdade de informação, que, no fundo, se prendem com a dignidade humana. Por exemplo, vejamos o que se estipula nos pontos 1 e 2 (os sublinhados são meus):

“1 - Todos os elementos dos serviços de programas devem respeitar, no que se refere à sua apresentação e ao seu conteúdo, a dignidade da pessoa humana, os direitos fundamentais e a livre formação da personalidade das crianças e adolescentes, não devendo, em caso algum, conter pornografia em serviço de acesso não condicionado, violência gratuita ou incitar ao ódio, ao racismo e à xenofobia.

2 - Quaisquer outros programas susceptíveis de influírem de modo negativo na formação da personalidade das crianças ou de adolescentes ou de afectarem outros públicos vulneráveis só podem ser transmitidos entre as 23 e as 6 horas e acompanhados da difusão permanente de um identificativo visual apropriado.”

Se esquecermos o bom gosto, a boa formação, o bom senso e a sensibilidade, qualidades talvez consideradas risíveis por muitos, esbarraremos, ainda assim, na imperturbabilidade da lei. Práticas que a ofendam, são ilegais ou, pelos menos, irregulares, e devem ser denunciadas, bem como daí retiradas as necessárias consequências.
Vem isto a propósito de, no passado domingo, à tarde, na SIC, canal aberto e generalista, abrangido por esta legislação, ter visto exibir um programa de “wrestling”, esse lamentável e degradante espectáculo com tão perniciosos efeitos nas nossas crianças e adolescentes, no que tem de incitamento à violência gratuita e à boçalidade grotesca.

Quando tantos males e tantos culpados se apontam no falhanço da nossa educação, quem pára as televisões nos eus crimes de lesa-formação? E onde pára a Entidade Reguladora para a Comunicação Social ?
E que diria um responsável da SIC ao filho se ele lhe aparecesse em casa ferido, porque o “Piranha” da turma resolveu ensaiar nele um golpe novo aprendido na sua televisão?


NOTA: A situação prevista no ponto 2, que se refere sobretudo ao horário de transmissão configura uma contra-ordenação grave e é punível com coima de 20 mil a 150 mil euros, enquanto que a infracção ao ponto 1 é considerada uma contra-ordenação muito grave e prevê uma coima variável entre 75 mil e 375 mil euros, admitindo-se mesmo a hipótese de suspensão da transmissão por um período de 1 a 10 dias. Talvez por isso já não veja na grelha de programas da próxima tarde dominical tão edificante programa.

domingo, dezembro 31, 2006

Cíclico


Por entre o histrionismo das comemorações e o feérico das instalações, entreabre-se a janela do que nos reserva a vida em mais um ano. Que todos vivam muito e provem as delícias do mistério da existência. O mais é pó...

ou éter...

domingo, novembro 26, 2006

E porque a morte biológica pode ser apenas mais uma semente



















de profundis amamus
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


Mário Cesariny

quarta-feira, novembro 01, 2006

sexta-feira, outubro 06, 2006

Aguarela.

Manhã cedo. Orvalho a vestir toda a vegetação rasteira. Verdes mortiços competindo com cinzentos baços na paleta. O reino da água invadindo os terrenos agrícolas. Uma batalha pacífica e gloriosa aos primeiros raios de sol.
O portão abre-se, rangendo. Uma casa modesta, prenhe de serenidade rural, deixa sair os habitantes. O homem, tronco de muitos círculos de idade, caminha pesada e muito muito muito lentamente. Dirige-se para a rua, empurrando o velho motociclo. Não se sabe qual dos dois amigos apoia qual. Talvez os dois sejam um só. As rodas de um não se movem mais rápido que as pernas do outro. O coração de um não faz mais ruído que o motor calado do outro.
Já passaram largos minutos. O homem está agora na berma da estrada. Respira fundo. Ficou imóvel. A sua silhueta ganha contornos épicos na contraluz matinal. Sorve o ar fresco uma vez mais. Sente-se ainda vivo.
Num esforço sobre-humano, levanta uma das pernas. Com a lentidão da dor, galga a vertigem do selim e consegue escarranchar-se no velho motociclo. Toma fôlego. Titubeante, periclitante, com uma pancada seca do pé, põe o veículo a casquinar vontades. Um rolo de fumo anuncia a vitória motorizada. Com o olhar amarrado ao horizonte, afivela cuidadosamente o capacete. Parece ir desmoronar-se a qualquer momento.
Atrás dele, impávida, automática, a mulher aconchega-se na parte de trás do assento.
E partem, para mais um dia na vida.