domingo, janeiro 08, 2012

Alienação

Há duas formas de procurar a felicidade: imitar os deuses e vencer o destino ou aceitar a existência, tentando fruir os seus prazeres e minimizar as suas agruras. Na primeira via, está a busca do poder, a criação, o rito, a marginalidade e tantas outras vertigens; à segunda, pertencem todos os gestos do quotidiano, filhos da herança cultural da sobrevivência e das páginas do livro pessoal de cada um. Mas, como, nestas coisas, não é tudo a preto e branco: as duas vias, na verdade, entrelaçam-se, fundem-se e refundem-se, numa espiral contínua que é a história dos indivíduos e dos povos. No entanto, não parece haver qualquer equilíbrio entre estas duas forças, pois a sua acção e manifestação se processam de modo desproporcionado e instável, ora uma sobrepujando a outra, ora complementando-se, ora alternando-se.

Estranho e patético exercício (cómico mesmo, se visto por um hipotético deus), em que consciência e inconsciência se negam mutuamente, se atacam e fogem ao mesmo tempo.

Estas vias de alienação não passam de ferramentas do humano, para assobiar para o lado, para escapar por entre os pingos da chuva, para esquecer o horror da existência e a inevitabilidade da morte. Ou para sentir a vertigem do abismo.

Provar o gosto da morte ou a fusão no cosmos, perseguindo o esquecimento de si mesmo.

domingo, fevereiro 06, 2011

a explicação da paisagem




a paisagem é recortada.



a explicação da paisagem

com o seu plúmbeo rolo de certezas
e os seus óculos sapientes de miopia
deixa veredas niveladas
para os ronronantes motores
da nossa atabalhoada ignorância.

sempre o desespero
do conforto.
Mito, 6-2-11

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Lírico e Épico


Nas duas mãos do texto poético - a lírica e a épica, correm as veias da sedução; com a expressão de sentimentos se seduz o Amor, com a glorificação dos heróis se seduz a Morte.

terça-feira, agosto 21, 2007

The meaning of life

Alinho o lápis pelo canto inferior da base para copos. Alinho o corta-unhas pelo bico do lápis. Duma ponta do corta-unhas, traço uma linha imaginária num ângulo de 45 graus com o comprimento igual ao dobro da altura do lápis. Nesse ponto deposito uma sandes de queijo. Calculo uma bissectriz no pão e cravo-lhe um palito com uma azeitona. Na sombra da oliva, ergo um copo de vinho cheio com o número de gotas igual ao total de semanas que vivi até hoje.
Afinal, há um sentido da vida.

terça-feira, agosto 14, 2007

Reencontro















(a Miguel Torga)

Reencontrei-te hoje à tarde

Estavas anichado na tua voz litúrgica
Falavas muito mais baixo que os teus poemas
E todavia ribombavas
Mais fundo que uma fraga fendida por um raio
Sussuravas mais alto que as urzes no crepúsculo
Falavas para o vazio
Quem te aprisionou sabendo que estavas irremediavelmente
Prisioneiro da tua sede de liberdade?
Reencontrei-te e estavas arrumadinho com datas e lugares e tudo
Tua voz engaiolada em tons de lounge de hotel
A tua missa, quem a saberá?
Como pareciam acolhedores os ecos sintéticos da tua alma
Como soavam afáveis as tuas sílabas
Terias caído na vertigem da delicadeza?
Mil vezes, não!
A tua voz só tem lugar na crua exactidão do negro sobre o branco
Ou melhor dizendo do branco sobre o negro pois a luz só está no que não se diz
Não te reconheci
Mas reconheci-me
vi-me esperneando no espasmo do espanto
vi-me sangrando no abandono do Pai
vi-me palpitando as dores da terra pródiga
vi-me tacteando titubeante esta vida de barro
vi-me perante a nudez dum socalco ancestral

vi-me petrificado de dúvida e de certeza na mesma ígnea fusão

os pedaços de papel juravam lealdade
garantiam a perpetuação impossível
erguiam-se da lama e marchavam alegres da sua missão
Oh, oráculo de Dioniso e Satanás
Que portas para o precipício franqueaste?
Que mão pode sentir o abraço fraterno da verdade?
Que ouvidos podem estender uma toalha alva
aos gemidos de Orfeu?

Que destino para as almas que se acotovelam na encruzilhada
Da dúvida
Antecâmara da comunhão com o húmus?

Reencontrei-te hoje à tarde
A voz da gravação era velha
E de ancião
Mas as tuas palavras escritas rasgavam a treva com o ímpeto da juventude
Em todo o lado nascias e voltavas a nascer
O verbo lançando penedos a grandíssimas alturas
E cá em baixo as almas confusas comemoravam o teu primeiro
Centenário.

Mito, 12 de Agosto de 2007

quarta-feira, maio 30, 2007

Matar o tempo

Estou numa biblioteca pública. Nova e com excelentes condições, embora ainda com um acervo em crescimento. Muito espaço, muito claridade, óptima arquitectura, arejada e dialogante, diligentes e afáveis funcionários. Bons sofás em frente de óptimos equipamentos de audiovisual para a fruição de música e cinema. E muitos computadores, com ligação à Internet, claro. Muitos utentes, na maioria, jovens.
Alguns demonstram até algum entusiasmo, murmurando, eufóricos, no limite do civismo. Distraído, rodo o pescoço em busca displicente da origem de tal ânimo. Agora entendo, estão a disputar um daqueles jogos de realidade virtual 3D, em que se empunha uma pistola e se tenta dizimar quem quer que surja pela frente. E lá estão eles, alguns quase homens, de olhos brilhantes e sorriso infantil, clicando nas teclas assassinas. E matam, e matam, e matam, e matam...e matam?


Quem sabe se, um dia, o serão mesmo chamados a fazer?

quarta-feira, abril 25, 2007

Vim

Vim ver-te. É raro vir cá abaixo. Estás na mesma posição, espreguiçado no afago das silvas. Cá abaixo não chega o vento cortante nem o sol arranha com tanta força. Estás na mesma. Talvez diferente de quando estavas lá em cima, no alto da colina, quando o vento te eriçava os musgos e o sol te castigava as costas, enquanto eu dormia aninhado na minha ignorância, enquanto os medos germinavam. Estás na mesma. Talvez mais calado. Sempre cultivaste o silêncio. As palavras sabiam-te a fel. No silêncio estendeste os teus utensílios. Com o silêncio fabricaste as tuas planícies.
Não esqueço o dia da tempestade. Havia uma música verde no ar. Um aroma de pão a entrar no forno. Um frémito de dúvida percorreu as nuvens. O raio caiu, indiferente como uma flecha, certeiro como a fome. E tu caíste, desamparado pela colina abaixo. E eu fiquei a olhar para baixo, os olhos desenrolados nas torrentes de chuva. Senti os ossos líquidos, a alma vitrificada. O primeiro esvoaçar de medo tocou-me no lóbulo da orelha esquerda, agitando as portas mais abaixo. Olhei para cima e não vi nada. Senti o primeiro espigão a crescer-me nas costas. Caíram-me os dentes, os olhos apodreceram e, em seu lugar, cresceram duas pedras. Não consegui chamar pelo teu nome.
Arrependi-me de não ter descido à planura, incrustado no penhasco. Faço-o agora. Vejo que continuo por aqui. Vim ver-me.

domingo, fevereiro 25, 2007

Do you feel stupid?

Não resisto a transcrever aqui uma citação de Flaubert, saída hoje no Público:

"Ser estúpido, egoísta e ter boa saúde são três requisitos para a felicidade, mas se a estupidez faltar, está tudo perdido."

sábado, fevereiro 10, 2007

Tragédia à portuguesa

Todos conhecemos as tradicionais editorias dos órgãos de comunicação social: política, sociedade, desporto, internacional, etc., cujos chefes são os editores, responsáveis pela orientação editorial do tratamento jornalístico de cada vertente e, sobretudo, pela determinação do “agenda setting”, ou seja, da escolha dos assuntos a tratar e da forma de os tratar.
Ultimamente, tudo indica que haja uma nova editoria a imperar nas televisões: a da “tragédia”. Sabedores da avidez mórbida dos telespectadores, os senhores das televisões parecem ter estabelecido prioridades: tudo o que possa conter algo que cheire a tragédia, a drama, a horror.
Seja porque o fenómeno do aquecimento global obriga, seja porque as verdadeiras notícias escasseiam (ou a vontade de as procurar), cada vez se torna mais frequente a abertura dos telejornais com alertas amarelos emanados da Protecção Civil, ora porque vem aí muito frio (que inesperado, em pleno Inverno!), ora porque vai chover (pasme-se!), ora porque o vento vai redobrar de intensidade. Meu Deus, parece que nevou na serra da Estrela! Dizem que, numa rua de Tomar, dois tapetes ficaram encharcados durante a noite!
O pior é que os Fados eternos não colaboram e raramente acontece algo de verdadeiramente “trágico”, como se desejava desesperadamente. Não podem cair pontes todos os dias…Verdadeiramente trágico é quando se interpela o chamado popular que por ali ciranda, ao cheiro das televisões: - O frio? Ah, menina, é o tempo dele!” Insondáveis mistérios da sabedoria proverbial…
Assistimos, pois, a grandes “tragédias” por alturas da hora de jantar: as personagens não são nobres, mas o horário, é-o; desde logo se manifesta a hibris, o desafio que a falta de acontecimentos lança a um editor em desespero e que o leva a arriscar a notícia virtual; dilacerante é o pathòs, o sofrimento de quem tem de suportar tamanhos dislates; toda a reportagem logo se revela um anti-clímax; de pseudo-facto em pseudo-facto, de peripécia em peripécia, com a ajuda do jovem e voluntarioso estagiário preparado para arrostar a intempérie, mas que tem de pedir ao operador de câmara que lhe sopre no cabelo de vez em quando, caminhamos até à anagnórise, a revelação total: a notícia é que a natureza continua a fazer o seu trabalho. A catástrofe é que a comunicação social não faz o seu. Quanto ao senhor editor de “Tragédia”, não nos resta muito mais que mandá-lo catarse.

Volta, Artur Albarran, estás perdoado! O drama, o horror, a tragédia…

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Antes de adormecer

No afago da noite
Unimos a respiração
Remando sobre cansaços e sonhos
Como passageiros de veludo
Como asas rodopiando entre as flores
Olhámos o sol de frente
E sorrimos
E continuámos viagem, rindo estrondosamente
Que escadas que fontes que rios
Nos ligam ao lume da certeza?


Mito, 17-01-07

terça-feira, janeiro 09, 2007

SICK

O diploma conhecido por “Lei da televisão” (Lei n.º 32/2003, de 22 de Agosto) consagra no seu artigo 24.º alguns limites à liberdade de informação, que, no fundo, se prendem com a dignidade humana. Por exemplo, vejamos o que se estipula nos pontos 1 e 2 (os sublinhados são meus):

“1 - Todos os elementos dos serviços de programas devem respeitar, no que se refere à sua apresentação e ao seu conteúdo, a dignidade da pessoa humana, os direitos fundamentais e a livre formação da personalidade das crianças e adolescentes, não devendo, em caso algum, conter pornografia em serviço de acesso não condicionado, violência gratuita ou incitar ao ódio, ao racismo e à xenofobia.

2 - Quaisquer outros programas susceptíveis de influírem de modo negativo na formação da personalidade das crianças ou de adolescentes ou de afectarem outros públicos vulneráveis só podem ser transmitidos entre as 23 e as 6 horas e acompanhados da difusão permanente de um identificativo visual apropriado.”

Se esquecermos o bom gosto, a boa formação, o bom senso e a sensibilidade, qualidades talvez consideradas risíveis por muitos, esbarraremos, ainda assim, na imperturbabilidade da lei. Práticas que a ofendam, são ilegais ou, pelos menos, irregulares, e devem ser denunciadas, bem como daí retiradas as necessárias consequências.
Vem isto a propósito de, no passado domingo, à tarde, na SIC, canal aberto e generalista, abrangido por esta legislação, ter visto exibir um programa de “wrestling”, esse lamentável e degradante espectáculo com tão perniciosos efeitos nas nossas crianças e adolescentes, no que tem de incitamento à violência gratuita e à boçalidade grotesca.

Quando tantos males e tantos culpados se apontam no falhanço da nossa educação, quem pára as televisões nos eus crimes de lesa-formação? E onde pára a Entidade Reguladora para a Comunicação Social ?
E que diria um responsável da SIC ao filho se ele lhe aparecesse em casa ferido, porque o “Piranha” da turma resolveu ensaiar nele um golpe novo aprendido na sua televisão?


NOTA: A situação prevista no ponto 2, que se refere sobretudo ao horário de transmissão configura uma contra-ordenação grave e é punível com coima de 20 mil a 150 mil euros, enquanto que a infracção ao ponto 1 é considerada uma contra-ordenação muito grave e prevê uma coima variável entre 75 mil e 375 mil euros, admitindo-se mesmo a hipótese de suspensão da transmissão por um período de 1 a 10 dias. Talvez por isso já não veja na grelha de programas da próxima tarde dominical tão edificante programa.

domingo, dezembro 31, 2006

Cíclico


Por entre o histrionismo das comemorações e o feérico das instalações, entreabre-se a janela do que nos reserva a vida em mais um ano. Que todos vivam muito e provem as delícias do mistério da existência. O mais é pó...

ou éter...

domingo, novembro 26, 2006

E porque a morte biológica pode ser apenas mais uma semente



















de profundis amamus
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


Mário Cesariny

quarta-feira, novembro 01, 2006

sexta-feira, outubro 06, 2006

Aguarela.

Manhã cedo. Orvalho a vestir toda a vegetação rasteira. Verdes mortiços competindo com cinzentos baços na paleta. O reino da água invadindo os terrenos agrícolas. Uma batalha pacífica e gloriosa aos primeiros raios de sol.
O portão abre-se, rangendo. Uma casa modesta, prenhe de serenidade rural, deixa sair os habitantes. O homem, tronco de muitos círculos de idade, caminha pesada e muito muito muito lentamente. Dirige-se para a rua, empurrando o velho motociclo. Não se sabe qual dos dois amigos apoia qual. Talvez os dois sejam um só. As rodas de um não se movem mais rápido que as pernas do outro. O coração de um não faz mais ruído que o motor calado do outro.
Já passaram largos minutos. O homem está agora na berma da estrada. Respira fundo. Ficou imóvel. A sua silhueta ganha contornos épicos na contraluz matinal. Sorve o ar fresco uma vez mais. Sente-se ainda vivo.
Num esforço sobre-humano, levanta uma das pernas. Com a lentidão da dor, galga a vertigem do selim e consegue escarranchar-se no velho motociclo. Toma fôlego. Titubeante, periclitante, com uma pancada seca do pé, põe o veículo a casquinar vontades. Um rolo de fumo anuncia a vitória motorizada. Com o olhar amarrado ao horizonte, afivela cuidadosamente o capacete. Parece ir desmoronar-se a qualquer momento.
Atrás dele, impávida, automática, a mulher aconchega-se na parte de trás do assento.
E partem, para mais um dia na vida.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Nova nomenclatura linguística


A famigerada TLEBS em artigo de jornal, cuja leitura se sugere, e do qual se recolhe um excerto significativo:

"Nenhum pediatra diz a uma criança com dores de barriga: você tem uma crise gástrica moxirreica. isto é uma questão de senso-comum", considera. "No entanto, crianças de seis podem ser confrontadas com questões como: 'Explicite o valor anafórico do conector'. Que benefícios é que isso vai trazer?"

Álvaro Gomes


Para ler o artigo todo

http://dn.sapo.pt/2006/09/28/sociedade/novos_termos_gramaticais_geram_contr.html

quinta-feira, setembro 21, 2006

Quem parte


Gostaria de saudar a oportunidade da edição de um suplemento dedicado à Educação, incluído no número de hoje (21-09-06) da revista Visão, que, para além de numerosos gráficos e estatísticas, contempla um artigo de fundo de uma socióloga e uma página de lugares-comuns de uma ministra.
No entanto, torna-se necessário tecer alguns reparos. A primeira parte da revista é dedicada à apresentação de dados estatísticos e conclusões oriundas do relatório da OCDE "Education at a Glance 2006". Nesta secção, são jornalistas que comentam os dados apresentados, interpretam os respectivos gráficos e sobretudo lançam as linhas de leitura para um estudo comparativo. Invariavelmente, focam-se aspectos que tendem a culpabilizar e descredibilizar a classe docente.

As fontes dos dados, para além do referido estudo, são, na sua maioria, governamentais e não são alvo de uma análise verdadeiramente crítica e objectiva. Se não, vejamos o exemplo mais gritante:
São apresentados os números do decréscimo da população estudantil e o paradoxal aumento do número de docentes. A única resposta avançada pelo jornalista é que "a explicação, qualquer que seja, foge à lógica". Mais à frente, uma tabela que ilustra o número de alunos por turma mostra que os professores portugueses, tal como os gregos, são os que menos discentes têm: apenas dez. Explicação: também nenhuma, para além da referência aos famigerados horários-zero e, de forma implícita, o facto de os professores com mais anos de serviço terem menos horas de serviço. Sem prejuízo da importância destes factores, parece-me que se olvidam outras variáveis com grande relevância.

Como sempre, mexer em números é passível das mais diversas interpretações e manipulações. Já diz o povo: "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou não tem engenho ou não tem arte". Se fôssemos aprofundar os processos de como se chega a estes números, ficaríamos talvez chocados com a sua falibilidade e até credibilidade. Os números estão lá. Mas como se chegou a eles?

Quando se faz jornalismo, sobretudo com o nível que deve ter uma revista como a Visão, impõe-se questionar os números e lançar hipóteses que vão para lá da primeira impressão, do tal "relance". Seria talvez também interessante ouvir outras vozes que não apenas as das cúpulas e dos intelectuais de serviço, ouvir as vozes que estão no terreno. Uma simples conversa com qualquer professor comum poderia pôr em evidência este simples facto, quase sempre escamoteado nestas análises, porque não dá jeito nenhum.Refiro-me, em concreto, à pululante existência de horários incompletos. Quantos são eles? Como se repartem? Quantos professores têm apenas 6, 8, 10 horas de serviço (ganhando proporcionalmente e cerceados de outros direitos, como o subsídio de alimentação)? De que forma esta variabilidade afecta os números referidos anteriormente: o ratio de professores / alunos e o próprio número de docentes? E como se apresenta esta variável noutros países? E que dizer da sazonalidade da colocação desses professores? Alguns trabalham 2, 3 , 4 meses ou até menos, em substituições e contratos de curta duração. De que forma podemos tomar, em Portugal, o número de professores como um indicador estável, passível de estabelecer rácios e comparações com dados de outros países?

Tem mérito a iniciativa da Visão, mas merece igualmente reparos: é necessário ouvir a outra parte. Para ter mais engenho e mais arte.

domingo, setembro 10, 2006

Rita Catita


É verdade. Admito-o. Comprei o Expresso deste fim-de-semana. Achei que comprar o "Lost in Translation" por dois euros e oitenta era uma pechincha. Mas lá acabei por trazer o papel também. Vagueando displicentemente pelas páginas da Única, revista do dito cujo, reconheço a histérica e mediática filha do Ferro Rodrigues. Divulgava ela, na sua rubriquita, um blog supostamente de "bolinha vermelha", que aliava valor literário a um certo pendor erótico. Evidentemente que retirou alguns excertos mais picantes para espicaçar o apetite pelo dito blog - o razoavelmente conhecido ana-de-amsterdam.blogspot.com -, enaltecendo a sua qualidade: "É para mim a mais recente revelação blogosférica." E lá seguiu para outras paragens, com o afã apressado de starlet televisiva. Com certeza não teve tempo para ler o post da dita Ana de 28 de Agosto, intitulado "As cabras capadas (1)" e que, com a merecida vénia, passo a citar

Ter comentários num blog é o mesmo que deixar aberta a porta da nossa casa e deixar entrar no nosso espaço, mexer nos nossos objectos, gente que vai ao teatro ver espectáculos da Teresa Guilherme, gente que lê livros da Margarida Rebelo Pinto e afins, gente que gosta da Rita Ferro Rodrigues e da Margarida Pinto Correia (...)

Obrigado, Ana!

domingo, setembro 03, 2006

Azul













Vogo devagar nas vagas mansas
A tinta azul escorre-me dos cabelos até aos ombros
E lava-me as têmporas de ilusões
Nadar é uma forma de existir como outra qualquer
Nada como um peixe nada como uma estrela nada como uma vontade

Vogo devagar nas águas ancestrais
Sobre a cabeça o sol faísca e risca o céu como um estilete
A brancura nítida do azul em explosão
Mil pequenos dedos me embalam e afagam
Nada como um peixe nada como uma certeza nada como um sonho

Mil outros corpos vogam devagar nas vagas calmas
Incandescentes como eu
Chicoteados de luz
Olhares cravados na flor azul
Bêbados de ternura
Naquele instante cego e ledo
Antes de espreitar o horror do fundo


Mito, 3 de Setembro 2006

sexta-feira, agosto 25, 2006

Zé Mário


Carrega a dor da utopia. Mas não se conforma no rótulo de "lírico" de esquerda. Destila o desencanto e às vezes o ressentimento por um mundo que caminha para os antípodas do seu sonho. Mas tem uma obra singularíssima e belíssimas músicas, algumas das quais se podem escutar em http://www.2020mm.com/ecards/JoseMarioBranco/. Destaco o tocante "Do que um Homem é Capaz" ou o desconcertante "O Papão do Anão". A maior parte do álbum Resistir é Vencer assume contornos de canção de combate, a dita "música de intervenção". Ouça-se a "Canção dos Despedidos":

Nós somos lixo
Já não há gente, há só lixo
Dispensável, descartável, reciclável

O artista define o seu lugar ao lado do povo, fazendo parte dele, não abdicando da sua condição.

E o tempo a passar
E eu a cantar
Eu também faço parte do lixo

É inegável a presença de alguns "tiques" muito datados e talvez uma certa ingenuidade na análise social - será tudo tão simples?
Porém, não esqueço a coerência, a verticalidade e a sensibilidade do autor que um dia me pôs a chorar com uma interpretação da sua canção "Eu vim de longe". Somos todos companheiros nesta caminhada onde "Há que humanizar a humanidade" (Canção dos despedidos).