segunda-feira, novembro 01, 2004

In Memoriam

Hoje, fui levar flores aos meus mortos.
Ao contrário dos últimos anos, em que uma cínica chuva tem acompanhado este Dia dos Defuntos, a manhã e tarde de hoje foram rasgadas por um sol faiscante, talvez ateu…
No cemitério, centenas de vultos flutuavam por sobre os jazigos, depositando ramos e acendendo velas. Lágrimas discretas e genuínas acompanhavam gestos antigos, como o de beijar a parte inferior da ponta dos dedos, fazendo-os, depois, ao de leve, aflorar as fotografias ou nomes dos entes perdidos. Perdidos, não, que não morreram, continuam vivos na nossa memória. Que significa estarem vivos na nossa memória? Significa que estão mortos. Ou que estarão peculiarmente vivos, enquanto forem vivos os que deles se lembrem directamente e depois os outros que lentamente têm a função de remexerem no brasido da fogueira até que uma última cinza incandescente se eleve na brisa, fuja do tempo e ganhe a eternidade.
A arenga do pároco no microfone soa estranhamente na mente dos presentes; são palavras que, de tantas vezes repetidas, perderam o sentido e a inteligibilidade. Vagamente familiares, são só chicotadas na sobriedade dos ciprestes. Apenas a música e as vozes irmanadas fazem crescer nos corações um sentimento de pertença e de comunhão de um mistério redentor e reconfortante. As notas do órgão são degraus das escadas do céu e a cada fôlego engole-se uma dose de doce eternidade. Poderíamos ficar para sempre, perfilados no cemitério, companheiros dos ciprestes, levemente ondulados pela melodia quente e monótona.
A voz do padre-cantor, que entoa um versículo com denodo, quebra o encantamento em catadupas de cristal. Os corações voltam a sofrer.
Ao lado, alguém caça e os ecos de repetidos tiros ziguezagueiam, perplexos, por entre a multidão perfilada. Ao lado, a morte continua a sua marcha natural e inelutável. Mais tiros, mais tiros. Os olhos procuram-se, interrogam-se, lamentam-se: “Hoje, ninguém devia caçar.”
O “Graças a Deus” final desmobiliza toda a gente. Cumpriu-se a morte. Saiamos do cemitério para continuar a cumpri-la.
Pai, mãe, estou aqui e continuo sozinho. Sozinho, como só todos podemos estar.
Uma saudade rochosa recortou o meu ser em mil pedacinhos, fazendo-me vaguear pelas ruas, batendo com força contra as paredes. Entrei numa pastelaria e inexplicavelmente pedi uma bola de Berlim. O sabor devolveu-me a infância e a infinitude do meu mundo.

3 comentários:

Graça disse...

Gostei de te seguir nesta romagem/reflexão sobre a morte e a vida. Confesso que escreveria algumas coisas que escreveste - se eu não fosse eu, claro. Não é fácil moldar a dor sem cair na lamechice ou nos lugares-comuns; não é fácil torná-la (como a tua) pessoal – e transmissível.

Vera Cymbron disse...

Não escreveste este texto na espera de que alguns de nós te déssemos pancadinhas nas costas e confessássemos baixinho uma mesma dor, tenho quase a certeza... Algo me diz que não seria nada teu se assim o fosse!
Nada como manter à distância a morte, já basta pensar nela como unica certeza da vida.
Eu comi um mil folhas... não para recordar a infância, mas para adocicar as recordações das perdas do passado...
E a saudade meu caro, é mais que rocha, são lâminas afiadas espetadas todos os dias na minha existência!
Fica bem.

Graça disse...

Acho que não se deve comentar as dores que se desconhecem. E as dores dos outros (autênticas ou ficcionadas) são-nos perfeitamente alheias. Por isso, merecem sempre algum respeito, longe de sarcasmos fáceis e despropositados.